Beleza saudável na idade madura, um olhar diferente para vários perfis

Como consultora de imagem, trabalhei muitos anos acreditando que parecer mais jovem era o desejo de uma maioria no Brasil, incluindo eu mesma. E isso não é algo fora do comum em um país que já foi jovem, mas que hoje envelhece e não admite esse envelhecimento.

Somos um povo que, em geral, cultua a juventude e produz modelos que não refletem a realidade de uma maioria. A mídia vende esse conceito e nós o compramos. Somos bombardeados por propagandas que mostram mulheres bonitas, magras, jovens e seminuas.

Em 2003 a marca Avon empreendeu um estudo com mais de 210 mil mulheres em cerca de 24 países e concluiu que a preocupação das brasileiras com a vaidade é maior do que a média mundial.

Na busca por compreender um pouco melhor o que nos induziria a esse tipo de comportamento, encontrei uma pesquisa de 2017, realizada pela empresa GFK. Tal pesquisa diz que entre os fatores que motivam essa vaidade tanto para homens como mulheres, estão: sentir-se bem consigo mesmo, causar uma boa impressão ao conhecer pessoas e dar um bom exemplo para os filhos.

Abaixo dos 30 anos existe ainda a preocupação em ser atraente e acima dos 50 anos, em agradar o parceiro. É claro que as pesquisas costumam espelhar uma atitude que representa uma média da população, então aqueles que fogem do padrão acabam ficando de fora.

BELEZA PARA VIÚVAS

Vejo, por exemplo, que acima dos sessenta anos no meio em que convivo, existem duas situações que acontecem muito e que irão influenciar na vaidade:

  • na primeira, a mulher (viúva ou não) cuida da sua imagem porque quer sair de casa para se divertir com as amigas, tem uma vida cultural e social bem agitada;
  • já na segunda, a mulher está viúva e por isso, não se vê mais na obrigação de estar bonita, porque todo o seu autocuidado era direcionado para agradar o marido e não a ela mesma.

BELEZA PARA AS CUIDADORAS FAMILIARES

Existe ainda um público que é majoritariamente feminino e na faixa etária acima dos cinquenta anos (ainda que isso esteja se ampliando para todas as idades):

  • grupo das pessoas que se tornam cuidadores familiares de entes que possuem algum tipo de enfermidade crônica.

Eu me encontro dentro desse universo e percebo como é difícil o autocuidado quando a nossa preocupação central é o bem-estar do outro. O cuidador vem em último lugar e por isso a sua imagem acaba ficando de lado, e em consequência a vaidade e a autoestima.

É uma luta constante nos lembrarmos de que para que façamos o melhor para o nosso doente, é fundamental que estejamos saudáveis, e para isso acontecer, precisamos nos cuidar.

A BELEZA PARA OS HOMENS MADUROS

No caso dos homens maduros, a realidade da vaidade pode ser bem diferente. Uma grande maioria, ao longo da vida, vincula o cuidado com a aparência ao sexo oposto ou, então, ao universo profissional.

Então, ao se aposentarem, se aposentam também da necessidade de se cuidar. Se o homem estiver casado, a tendência é permanecer mais tempo em casa, diante da televisão, sem se preocupar em estar com a saúde ou a imagem em dia, quer ter os cuidados da companheira.

No caso de o homem estar solteiro, há a necessidade de encontrar uma parceira, então a vida se torna mais ativa e os cuidados com a imagem integram a sua rotina diária: a ginástica, a compra de roupas atuais, o corte de cabelo e os eventos sociais.

Para aqueles que buscam frear os efeitos “indesejáveis” do envelhecimento temos uma ampla gama de tratamentos estéticos e cosméticos que prometem maravilhas para quem está disposto a investir uma boa soma de tempo e de dinheiro.

Nada contra esse tipo de cuidado, eu mesma tenho um ritual diário de beleza, mas que isso seja feito de forma consciente, entendendo que não é possível parar o relógio, mas fazer uma boa manutenção, evitando avarias mais sérias.

Milagres não existem então a ideia é estar relativamente preparado para lidar com questões que estariam relacionadas ao “tempo de uso” do nosso corpo e à nossa genética. Que bom que estamos começando a presenciar um movimento, ainda que tímido, de atores importantes dos meios de comunicação como a revista VOGUE, que é uma lançadora de moda e formadora de opinião.

Desde 2017, iniciou uma campanha para que as empresas de beleza não utilizem mais a terminologia anti anging em seus produtos, partindo do princípio que não é possível parar o processo de envelhecimento.

fonte da imagem: revista Vogue

Vou acompanhar a repercussão disso e espero trazer mais notícias sobre essa questão. Outras empresas que merecem os aplausos para as suas ações são a DOVE (#belezaforadacaixa, #realbeauty) e a NATURA (#bemestarbem, #vivaasuabelezaviva).

A Dove começou a utilizar o tema “Beleza Real” para a sua publicidade em 2004, ao mostrar mulheres do dia a dia sem os efeitos especiais do Photoshop. Com essa série de propagandas a Dove ganhou inúmeros prêmios, além de ter tido um aumento gigantesco nos seus resultados de vendas.

Em 2017 a marca atualizou a ação “Real Beleza” com novos anúncios que mostram 32 mulheres, de 11 a 71 anos, originárias de 15 países ao redor do mundo, incluindo Brasil, Índia, China e as Filipinas. O objetivo principal é mostrar que a “Real Beleza” feminina inclui uma diversidade de etnias, formas, tamanhos e estilos.

É importante falar sobre alguns dados encontrados em um estudo recente feito pela Dove e que está disponível em seu site:

  • apenas 4% das mulheres em todo o mundo se consideram bonitas
  • 80% das mulheres concordam que todas possuem algo de bonito em si, mas não conseguem saber o que seria
  • 54% das mulheres entendem que são elas que mais se criticam
  • 76% acreditam que os meios de comunicação estabelecem um padrão de beleza inalcançável

A Natura vem construindo uma trajetória bem coerente. Um dos primeiros slogans utilizados por ela foi ““Beleza não tem idade”, nos idos anos de 1984, que buscava mostrar que os seus produtos poderiam reduzir as rugas, mas não trariam a juventude de volta. A primeira campanha de Chronos, no início dos anos noventa, juntou dezoito mulheres de todas as idades, profissões, cores, pesos e estaturas.

Ainda hoje a linha Chronos continua a ser um dos carros-chefes da empresa focando no conceito de beleza livre de estereótipos. Em 2000 a Natura adotou o posicionamento “Bem Estar Bem”. E assumiu a palavra velho nas suas mensagens ao criar a hashtag #velhapraisso para divulgar um vídeo aonde cinco mulheres enfrentam o tabu de serem consideradas “velhas demais” para suas escolhas.

natura

fonte da imagem: site da natura

O trabalho dessas empresas da beleza é fundamental para que sejam criados novos padrões estéticos que representem as escolhas de homens e mulheres de uma forma mais ampla, sem terem que se encaixar em grupos restritos com os quais não se identificam.

Comportamentos que fogem do que é praticado pela maioria tendem a serem marginalizados e depreciados, mas, quando encontram um eco para suas atitudes, se fortalecem e se validam.

A internet tem um papel fundamental nesse sentido, pois é a partir dela que são criadas pontes inimagináveis, encurtando distâncias e reduzindo a dificuldade de se comunicar em outras línguas. Essa quebra de barreiras produz esse conceito de diversidade que tem norteado uma ampla gama de ações educacionais.

Para mim é até difícil pensar que foi somente agora, com quase 40 anos, que entendi que a busca por uma imagem saudável seria uma meta muito mais interessante do que a busca por uma imagem jovem. Creio que é impossível alguém se sentir bonita e feliz se, ao mesmo tempo, não estiver se sentindo saudável.

Sabiam que de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), ter saúde não é somente não ter uma doença, mas ter um estado de equilíbrio entre corpo, mente e o social. Ou seja, não dá para ser saudável se você não se valoriza, não se cuida, não tem o apoio dos seus amigos e família ou não os apoie de alguma maneira.

Ter saúde dá trabalho, não é algo que acontece sozinho, por osmose. Precisa ser uma preocupação diária e constante, fazer parte da rotina. Não dá para escovar os dentes uma vez por semana e acreditar que a prevenção de cáries e outras infecções está sendo feita, assim como não dá para tomar banho somente aos Sábados e acreditar que é o suficiente para ter um corpo limpo e bem cuidado.

Da mesma forma, não dá para encontrar os amigos somente uma vez ao ano e achar que isso basta para se sentirem amados e amparados. O tempo não pára, então, quando vimos, ele já passou e não reservamos espaço para cuidarmos de nós e concretizarmos essa interação.

Afinal, ter saúde na maturidade envolve também questões sociais, então para que possamos construir uma imagem positiva da velhice é preciso acontecer ações em conjunto com essa finalidade. Eu, como estilista e consultora de imagem, quero poder conseguir quebrar alguns paradigmas relacionados à beleza acima dos cinquenta ou sessenta anos.

Não precisamos viver buscando nos encaixar em padrões estéticos, mas sim entender qual é a nossa beleza, respeitando os nossos valores, as nossas limitações, mas também compreendendo que é importante se cuidar e buscar ajuda de profissionais se estiver difícil fazer tudo sozinho.

Assim, pretendo com esses textos trazer informações e reflexões que nos aproximem cada vez mais da nossa essência, do que é fundamental para nos sentirmos mais felizes, bonitos e autênticos.

Com carinho,

Julia

Artigo escrito por mim no mês de Maio de 2018, como colaboração para o site: aterceiraidade.net

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