De volta ao começo: o diagnóstico

Olá!

Sei que muitas pessoas estão passando pela mesma situação que a minha, várias outras temem essa situação e, inúmeras outras, possivelmente, passarão por ela. De vez em quando alguém me pergunta: como foi que tudo começou? Essa não é uma resposta fácil de dar. Diagnosticar o Alzheimer não é uma tarefa simples. Essa doença pode ser o resultado de uma série de questões. Por isso resolvi contar algumas situações que podem explicar, um pouco, o quadro no qual a minha mãe se encontra.

A sua infância não foi muito fácil. Tímida e insegura, se achava magra demais, pois era, constantemente, chamada de “Olívia Palito”. Hoje seria considerado bulling, mas, naquela época, era apenas brincadeira de criança. O seu refúgio era a biblioteca, ali se isolava do mundo ao ler histórias como Moby Dick, Mulherzinhas ou Marco Polo. Durante a sua adolescência, houve um tempo em que se sentia extremamente deprimida. Chegou a parar os estudos e a fazer tratamento médico, que na época consistia, entre outras coisas, de sessões de eletrochoque.

Ao retomar a sua vida, fez supletivo e faculdade, casou e teve filhos. No entanto, sempre foi distraída, daquelas que se esquece, até mesmo, de buscar as crianças na escola. As pessoas, geralmente, achavam graça. E foi assim por toda a nossa vida em comum. Como acontece com muitas famílias hoje, um dia se separou de meu pai. E como para muitas ex-esposas, veio a depressão. Havia se aposentado, mas continuava dando aulas na faculdade, o que a mantinha de pé e ativa.

Percebíamos que os esquecimentos estavam maiores e até questionávamos a sua capacidade de dar aulas, mas ela seguia com a sua profissão, a qual sempre amou. Porém, em certo momento veio a demissão. Mais um grande baque para ela. No entanto, prosseguia com o seu trabalho voluntário, dançava, dirigia, viajava e participava de retiros budistas. Foi uma amiga médica, também praticante do budismo, que deu o primeiro aviso sobre algo não estar indo muito bem.

Como mamãe tinha a sua autonomia, foi ao geriatra por conta própria e começou a usar medicação para a memória. Até que um dia percebi que ela não estava mais dando conta de gerir esse processo sozinha. Foi aí que comecei a acompanhá-la nas consultas e a submeti a um teste de capacidade cognitiva com uma neuropsicóloga. O resultado deste trabalho mostrou que ela estava desenvolvendo um quadro de demência e que provavelmente, seria o de Alzheimer.

Já a levei a vários médicos especialistas e até o momento, parece que o Alzheimer só pode ser confirmado 100% por uma autópsia no cérebro do paciente após a sua morte. O que temos atualmente é um diagnóstico por exclusão, onde investiga-se todos os fatores que podem causar a perda da memória. Caso nenhum deles se confirme, dá-se o nome de Alzheimer. No entanto, é bom colocar aqui que existem centenas de tipos de demência, por isso é tão difícil prever o que irá acontecer com o paciente. Cada caso é um caso, cada paciente tem um histórico de vida.

Caso acredite que a sua memória ou a de um ente querido não está normal, não deixe de procurar um médico neurologista para fazer um check-up. Achando necessário, busque outras opiniões. A depressão é um dos fatores que podem levar ao Alzheimer, por isso deve ser tratada, tanto as suas causas quanto os seus sintomas.

Se pudesse voltar atrás, não teria deixado a minha mãe começar o seu tratamento sozinha. Procure dar todo o apoio possível ou busque apoio. Um fardo se torna bem mais leve se for dividido.

Com carinho,

Julia

fonte da imagem: saude.ba.gov

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